Como funcionam as pilulas anticoncepcionais
A pílula anticoncepcional é composta por dois hormônios sintéticos, um que imita o Estrógeno e outro que imita a Progesterona, que são os hormônios naturais da mulher e que controlam o ciclo menstrual e a ovulação. Com a administração destes dois hormônios sintéticos, de forma combinada, tenta-se “enganar” o organismo feminino, para que não se produza aqueles hormônios naturais e, assim, a ovulação não se faça. O hormônio parecido com o Estrógeno chama-se estrogênio, e o hormônio parecido com a Progesterona chama-se progestógeno.
No cérebro há uma glândula, a hipófise, que produz alguns hormônios (o FSH e o LH) para estimular a produção de hormônios do ovário. Estes hormônios da hipófise aumentam e diminuem no sangue no decorrer do mês e esta oscilação faz o ovário produzir o Estrógeno e, com a ovulação, a Progesterona. Quando os níveis de Estrógeno e Progesterona aumentam, os níveis do FSH e LH diminuem, e vice versa. Assim sendo, quando a mulher toma a pílula anticoncepcional, a hipófise entende que já há hormônio suficiente no corpo e deixa de produzir os seus hormônios. Com isso, a ovulação não se faz e a mulher não tem como engravidar.
São vários os tipos de hormônios sintéticos usados nas pílulas e mais diversas ainda as dosagens utilizadas. Com o decorrer dos anos, as doses foram diminuindo e os compostos, mudando.
A primeira pílula anticoncepcional surgiu em 1960, nos Estados Unidos, com o nome de Enovid, com doses elevadas, tanto de estrogênio (150 mg de Mestranol), como de progestógeno (9,85 mg de Noretinodrel). Em um ano de uso, foi retirado do mercado, por causa dos vários relatos de tromboembolismo (derrame, trombose em pernas e nos pulmões).
Apesar disso, as pesquisas continuaram e novas formulações foram descobertas, diminuindo paulatinamente a dose hormonal e, com isso, os efeitos colaterais.
Já no final da década de 60 surgem as pílulas com Etinilestradiol (EE) como estrogênio, com doses de 75 e de 50 mcg, sendo que esta última dose diminuiu em 25% o risco de tromboembolismo, em relação às formulações anteriores. Como progestógeno, surge o Norgestrel. São as pílulas de 2ª geração, que finalmente se estabelecem, se mantendo no mercado até os dias atuais. Embora com efeitos colaterais menores do que as anteriores, da 1ª geração, têm mais efeitos do que as mais modernas; no entanto, são mais baratas e, assim, preferidas ainda por muitas usuárias.
Na década de 70, surge a chamada 3ª geração de pílulas, agora com 30 mcg de EE, e um novo derivado da progesterona, o levonorgestrel, com melhor absorção intestinal e efeito mais forte, o que permite que se diminua a dose de estrogênio. São as ditas pílulas de baixa dose, que são as pílulas mais usadas hoje, ao lado das antigas pílulas de 2ª geração, com 50 mcg de EE.
Grosseiramente falando, o componente estrogênico das pílulas é o responsável pelas complicações venosas, como o tromboembolismo venoso já relatado acima, e sintomas como náuseas, vômitos, dor de cabeça e dor nas mamas. Por outro lado, o componente prosgestogênico das pílulas seria o responsável pelas complicações arteriais, ligadas à aterosclerose das artérias, que leva ao entupimento progressivo dos vasos, com várias complicações, como o enfarto de miocárdio (ataque cardíaco), a insuficiência arterial de membros inferiores com má circulação de sangue, e alguns tipos de derrame cerebral (o acidente vascular cerebral isquêmico). Além disso, o progestogênio seria responsável também por outros sintomas, como o aumento de peso, o inchaço, as alterações de humor e o surgimento de acnes. Para diminuir tais riscos, diminui-se a dose e muda-se o tipo de fármaco. No caso do estrogênio, chegou-se a um bom fármaco, o Etinilestradiol, com poucas complicações, que antes eram muito vistas, e tem se mexido mais na dose, passando de 30 a 15 mcg. No caso do Progestógeno, tem-se investigado outros tipos de fármacos, procurando menores complicações e também menos efeitos colaterais.
Assim, na década de 90, surgem novos progestógenos, como o Gestodene, o Desogestrel e, mais no final da década, a Drospirenona. Fármacos estes mais potentes, com melhor controle do ciclo menstrual e endócrino, e menor ação androgênica, diminuindo assim os riscos metabólicos e os sintomas descritos acima.
Temos então, na última década do século XX, o surgimento da 4ª geração de pílulas, com compostos progestogênicos mais seguros e doses estrogênicas ainda menores. Tendência esta que continuou nos primeiros anos do século XXI, com diminuição das doses. São as pílulas com 20 e 15 mcg de Etinilestradiol, além de Desogestrel 150 mcg ou Gestodeno 75 a 60 mg.
O que se precisa entender em relação a esta evolução da pílula, é que o risco foi sendo trabalhado com o tempo, para maior proteção da usuária, havendo produtos muito diversos, com características e preços também diversos, e que se pode mudar o tipo de pílula utilizado, de acordo com o risco e os sintomas de cada mulher. Assim sendo, não há a melhor pílula, mas sim a pílula mais indicada para cada mulher específica. A prescrição da pílula não é, portanto, nada simples, e necessita da ação especializada do ginecologista que será tanto melhor, quanto mais preparado for o profissional.
As complicações vistas com a pílula estão muito relacionadas com o mau uso das mesmas. Neste sentido, é um absurdo o uso indiscriminado da pílula por mulheres que se orientam com o balconista da farmácia. Orientada por eles ou pela amiga, não haveria um uso correto da pílula, sendo a interrupção do método muito freqüente, quando pequenas mudanças nos componentes poderiam trazer o bem estar e a eficácia que a usuária estava procurando. É por isso que se ouve tanto das pacientes: “Eu não me dou com a pílula!”. Quando se pergunta a elas quem as orientou, geralmente a resposta é “Ninguém. Fui na farmácia e comprei a pílula da minha amiga.” Espero que fique claro para quem me lê que desta forma não há como adequar o método para a paciente e tudo fica inadequado, com um resultado ruim. Assim, com ausência da orientação médica criteriosa, a pílula fica mal-falada, não por causa dela como método, mas sim pelo mau uso que se faz dela.
Contra-indicações
São várias as contra-indicações, relacionadas a um risco inicial grande para as possíveis complicações metabólicas e tromboembólicas das pílulas.
Mulheres no pós-parto (6 semanas) ou amamentando. Mulheres fumantes acima dos 35 anos. Hipertensão Arterial (PA> 160×100). Diabetes mellitus com mais de 20 anos de evolução, com alterações nos rins, nos olhos e nas pernas, ou mesmo se o controle não estiver adequado. Doença cardíaca isquêmica (enfarte ou angina), ou valvular complicada com hipertensão pulmonar. Acidente Vascular Cerebral (derrame cerebral) anterior ou atual. Dor de cabeça tipo Enxaqueca recorrente. Trombose venosa profunda ou Embolia Pulmonar anterior ou atual. Grandes cirurgias com períodos longos de imobilização. Problemas hepáticos (do fígado), como Hepatite viral ativa, cirrose ou tumores hepáticos, benignos ou malignos, além de doenças raras como as Síndromes de Dubin-Johnson e Rotor, assim como o antecedente de icterícia colestática da gravidez. Câncer de Mama presente ou anterior (até 5 anos, pelo menos). Doenças reumatológicas como o Lupus Eritematoso Sistêmico, a Polimiosite, a Dermatomiosite ou a Esclerodermia. Também Porfiria e Pênfigo vulgar, doenças estas raras. Mulheres epilépticas (com convulsões) têm um problema bem específico, que poderia contra-indicar o uso das pílulas. As drogas anti-epilépticas diminuem o efeito da pílula e a pílula diminui o efeito da drogas anti-epilépticas.
Indicações
A princípio, a pílula estaria indicada em todas as mulheres que desejassem usar, com capacidade para compreender a seqüência das drágeas e que não esquecesse de tomá-las, desde que não tivessem as contra-indicações acima listadas. O grupo de mulheres acima dos 35 anos é um grupo especial, em que o tipo de pílula deverá ser bem pensado pelo médico, levando em conta o perfil de cada paciente. As adolescentes poderão usar a pílula se tiverem maturidade suficiente para a atividade sexual e para entender as conseqüências dela. A idéia de que a pílula interferiria com a maturidade dos ossos e do funcionamento hormonal do corpo delas é incorreta, até porque uma gravidez traria muito mais problemas do que o uso da pílula.
Algumas mulheres se beneficiariam de forma especial com a pílula. Seriam aquelas com Tensão Pré-Menstrual, Dismenorréia (cólica menstrual importante), irregularidade e sangramento menstrual exagerado, endometriose, cistos ovarianos e Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), com aumento da acne e da pilificação. Na SOP, algumas pílulas (com progestógenos menos androgênicos) seriam mais adequadas do que outras.
Vantagens
Apesar de alguns riscos já ditos, a mulher que usa pílula anticoncepcional tem alguns benefícios bem comprovados. Seriam eles: a diminuição na cólica menstrual, a diminuição na dor do meio do ciclo (da ovulação), a diminuição do fluxo menstrual, a diminuição da acne e da oleosidade da pele. Além disso, a pílula diminui a incidência de algumas doenças, como a doença inflamatória pélvica aguda (DIPA) – que é um dos grandes responsáveis pela esterilidade em nosso meio (pela infecção nas trompas), o Câncer de Endométrio (ou do Corpo Uterino), o Câncer de Ovário e o Câncer de Cólon (intestino). Também a pílula melhora o perfil lipídico (Colesterol e suas frações), protege contra a Osteoporose da Menopausa. Adicionalmente, melhora a Endometriose e os Miomas uterinos, diminuindo os cistos ovarianos, melhorando os sintomas da displasia mamária (doença mamária benigna), além de melhorar a anemia relacionada com os sangramentos do útero e diminuindo também a gravidez ectópica na população, principalmente pelo efeito que tem na DIPA.
Temos que considerar também que a mulher que usa a pílula fica mais tranqüila quanto a uma possível gravidez, pela alta eficácia do método, além de poder contar apenas com a sua participação na anticoncepção, não dependendo da colaboração do homem. Infelizmente, muitos homens hoje em dia não querem usar a camisinha, expondo suas mulheres a uma gravidez indesejada.
Desvantagens
Nas primeiras duas ou três cartelas, é comum a mulher experimentar náuseas e dor de cabeça, que tendem a desaparecer com o uso. Outro problema comumente relatado é a preocupação em ter de tomar as pílulas todos os dias, objetivo não alcançado por todas as mulheres, dificuldade maior naquelas com ritmo de vida e horários muito variados. Algumas mulheres também se queixam de diminuição da libido, especialmente aquelas que percebiam o aumento do desejo sexual no meio do ciclo, com os sintomas relacionados com a ovulação. Para tais mulheres, a perda da variabilidade hormonal pode ser notada, principalmente no aspecto da modificação da secreção vaginal no meio do ciclo.
Também em desvantagem estão aquelas mulheres que tomam alguma medicação que interage com a pílula, como os anti-convulsivantes, os calmantes, os ansiolíticos, alguns antidepressivos e anticoagulantes.
Uma preocupação comum é com a diminuição na fertilidade com o uso prolongado da pílula, a qual não é bem verdadeira. Após 2 anos de interrupção no uso, a taxa das que não engravidam é por volta de 15%, pouco acima da taxa da população em geral. No entanto, pode ocorrer uma certa demora no retorno da regularidade do ciclo menstrual.
Outra queixa comum é de se engordar com a pílula, o que era um tanto verdadeiro nas formulações mais antigas, mas que atualmente não tem grande significado. Trabalhos relatam um acréscimo médio de 700 g no peso das usuárias de pílulas com levonorgestrel em 8 meses de uso. O que acontece é que o padrão de deposição de gordura fica um pouco diferente, com aumento da cintura e dos culotes.
Outro problema muito comum, principalmente com as pílulas de 4ª geração é a ocorrência dos sangramentos intermenstruais, que podem ser de escape, simulando uma menstruação, ou então em gotejamento, ambos incômodos. Ocorrem mais nos primeiros 4 meses de uso, com menor incidência após isso.
Eficácia
Usada corretamente, a falha da pílula anticoncepcional é uma das mais baixas de todos os métodos: 0,1%. No entanto, no uso cotidiano ou típico, esta falha sobe para 1%. Estudos populacionais em países com baixo desenvolvimento socio-cultural dão conta de até 30% de falha, por vários motivos, uma vez que poucas usuárias neste contexto usam a pílula como deveriam. Um grande problema é a descontinuidade, em decorrência dos efeitos colaterais. Estudos em países de 1º mundo contabilizam 71% de continuidade em um ano, o que deve ser muito menos em países como o nosso. Com a interrupção da pílula, há uma rápida liberação dos hormônios naturais, podendo ocorrer a ovulação com uma eficácia para a gravidez ainda maior do que anteriormente ao uso do método.
A falha na pílula se dá principalmente por um dos quatro motivos a seguir: esquecimento, início tardio da cartela frente ao ciclo (seja na primeira cartela ou nas seguintes), presença de diarréia e vômitos (que diminuem a absorção e a eficácia da pílula), e as interações medicamentosas.
Frente a tais riscos, acho interessante deixar algumas “dicas” no uso cotidiano da pílula.
Dicas para as usuárias da Pílula anticoncepcional
– Só iniciar e continuar o uso da pílula anticoncepcional sob prescrição e supervisão médicas
– Se houver náuseas ou dor de cabeça, se reportar ao médico no sentido de tomar sintomáticos. Nunca interromper a cartela de pílula anticoncepcional no meio, pois a falha aumenta muito e o controle do ciclo fica totalmente comprometido
– O mesmo em relação ao sangramento intermenstrual. Se estiver incomodando muito, o médico saberá tratar com a mudança de dose ou com outras medicações
Iniciar a 1ª cartela sempre no 1º dia da menstruação
– Dar intervalo de 7 dias entre uma cartela e outra, reiniciando o uso no 8º dia do descanso, independentemente do dia em que vier a menstruação
– A menstruação geralmente virá no 4º dia do repouso, mas pode vir antes ou depois
Se a menstruação não vier, não iniciar nova cartela e procurar o médico, para afastar gravidez
– Para as cartelas com 21 comprimidos, o dia da semana será sempre o mesmo para o reinício, o que ajuda a manter o controle.
Nas cartelas com 24 comprimidos, a pausa deverá ser de apenas 4 dias, ao invés de 7
– Se houver sangramento intermenstrual, checar com o médico se houve erro de ingestão ou interação medicamentosa. Na ausência destes, considerar como efeito normal
– Se houver vômitos até 2 horas da tomada da pílula anticoncepcional, nova pílula anticoncepcional deverá ser ingerida
– Se houver diarréia, a eficácia poderá ser comprometida, indicando-se o uso da camisinha ou da abstinência por 7 dias, a partir do ocorrido
– Procurar tomar as pílulas sempre no mesmo horário, junto a eventos rotineiros, que ocorram sempre no mesmo horário, como a hora do jantar, da novela, de dormir, etc.
– Se houver atraso em até 12 horas, tomar a pílula do dia assim que lembrar, e a seguinte no horário convencional
– Se houver esquecimento por mais de 12 horas, deverá ser usada camisinha ou abstinência por 7 dias, continuando a cartela
– Se houver esquecimento de 2 pílulas anticoncepcional, descartam-se as drágeas esquecidas e se continua a cartela, usando camisinha ou abstinência por 7 dias
– Ao iniciar o uso do método, precaver-se com o uso da camisinha ou da abstinência nas primeiras 10 pílulas
– O mesmo deverá ser feito quando se trocar o tipo de pílula anticoncepcional
- Sempre que estiver em uso de pílula e uma nova medicação for prescrita, perguntar ao médico se a tal medicação poderá ser tomada sem risco de interação medicamentosa. Nem todo médico sabe isso de cor, mas poderá investigar.
Fonte:www.drgalletta.com.br
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